sábado, 10 de outubro de 2009

Cortesia da casa


O Domingo amanheceu chuvoso; depois de um preguiçoso café da manhã, ela saiu para fazer compras. A idéia era trazer um frango assado para acompanhar a macarronada. Pegou o guarda-chuva de florzinhas, desceu a rua, pulou algumas poças, cumprimentou um aqui, outro ali. Parou no mercado, aproveitou pra comprar o lanche da tarde e seguiu para a padaria, que aromatizava o quarteirão com o preparo da iguaria. O cheiro a fazia imaginar cada momento daquele dia previsível. Já pensava na mesa, no sabor, na briga pelas coxas, de sempre, nas risadas, também de sempre, na felicidade da família, no salpicão do dia seguinte. Aquele domingo confortável, tão certo de si, não poderia prever o que estava por vir.
Quando dobrou a esquina ela avistou um menino parado logo no primeiro degrau do seu destino. Normal. Eles estão por toda parte. Preparou-se para olhar à frente e dizer que não tinha trocados ou caridosamente doar alguns centavos e terminar sua missão. Sentado ao pé da máquina que rodava as penosas a oito reais a unidade, ele apenas se aquecia, brincando com uma garrafa amassada enquanto se abrigava da chuva. Não pediu esmola, não pediu comida, não se alterou. Os bracinhos magrelos dedicados à garrafa, não se estendiam para pedir nada, mas agrediam mais que soco pugilista. Ela, mesmo assim, entrou na padaria pra comprar o astro do almoço, e aquele pequeno provocador não pedia nada e ainda se divertia com o brinquedo como se estivesse em seu quarto esperando a mãe chamá-lo para o almoço. Então, ela se alinhou à fila do frango, não conseguia parar de olhar o moleque. Pediu o frango, o menino nem aí, continuava brincando. A mulher procurava um sofrimento qualquer naquele rostinho, mas não encontrava, sujo e franzino, chegava a sorrir vez ou outra. Até que de tanto que ela olhou, enfim ele se virou. O olhar tranqüilo, feliz pelo quentinho do forno, cruzou com o dela.
De repente, sem sequer pedir desculpas ao rapaz que a atendia, desistiu do prato de domingo e acelerou o passo até em casa. Abriu a porta e ainda no capacho arrastando os pés com força para trás e respirando ofegante dizia: não havia frango, acabou, não havia, o frango acabou, não havia um sequer. A televisão estava ligada e ninguém deu muita atenção. Lamentaram a retruque sem mal desviarem os olhos do aparelho, acharam normal, afinal nesses dias o movimento é grande. Ninguém quer cozinhar em um domingo cinzento. O almoço transcorreu normalmente. Ou quase. A única coisa que a família estranhou foi o silêncio da mulher durante o almoço. Diante do arroto do caçula, do prato vazio da mais velha. Nada a abalava. De vez em quando, entre longos períodos calada, repetia em voz alta: com o frango ficaria melhor, só que o frango não havia, acabou. E concluía em pensamento: até havia, mas não havia nem um que, pelos mesmos oito reais, deixasse de dar como brinde tanto a farofa, de destino certo ao lixo, como o olhar daquele menino. Olhar que fez pesar insuportavelmente as sacolas de biscoitos e brioches na sua mão. Olhar que, sem saber, acabou com os planos do almoço de domingo.

2 comentários:

  1. Adorei, tem um que de Manuel Bandeira. Lembrei do Bicho

    ResponderExcluir
  2. que bom, amiga! adorei o comentário

    bjs

    ResponderExcluir